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terça-feira, 29 de abril de 2014

Brincando com Lobato. O lápis sem ponta



O lápis sem ponta

Estamos no País da Gramática, no palácio do verbo Ser. Diante de Sua Serência, quase não consigo escrever nada. Eu sou o lápis sem ponta, atrás da orelha da Emília. Estou trêmulo. Esforço-me, e a ponta só arranha o papel. 
A boneca é tão senhora de si, que nem presta atenção ao meu sofrimento. E eu só sou um lápis por causa do verbo Ser. Se não fosse ele, não existiria.
Ai, Emília, não precisa morder assim, para fazer a ponta, não adianta.
Não sei como Lobato conseguiu escrever esse capítulo.

Maria Nazaré Laroca
Juiz de Fora, 29/04/2014.

Emília na casa do Verbo Ser     
                     
Emília foi levada à presença dele e entrou muito tesa, com um bloquinho de papel debaixo do braço e um lápis sem ponta atrás da orelha. O venerando ancião estava sentado num trono, tendo em redor de si os seus sessenta e oito filhos — ou Pessoas dos seus Modos e Tempos. Parecia um velho de mil anos, com aquela cabeleira branca de Papai Noel.
— Salve, Serência! — exclamou Emília, curvando-se diante dele, com os braços espichados, à moda do Oriente. — O que me traz à vossa augusta presença é o desejo de bem servir aos milhares de leitores do Grito do Pica-Pau Amarelo, o jornal de maior tiragem do sítio de Dona Benta. Os coitados estão ansiosos por conhecer as ideias de Vossa Serência sobre mil coisas.
— Suba, menina! — respondeu o Verbo Ser com voz trêmula.
Emília subiu os degraus do trono, abrindo caminho a cotoveladas por entre a soldadesca atônita, e foi postar-se bem defronte do venerável ancião.
— Fale, Serência, enquanto eu tomo notas — disse ela, e começou a fazer ponta no lápis com os dentes.
O Verbo Ser tossiu o pigarro dos séculos e começou:
— Eu sou o Verbo dos Verbos, porque sou o que faz tudo quanto existe ser. Se você existe, bonequinha, é por minha causa. Se eu não existisse, como poderia você existir ou ser?
— Está claro — disse Emília escrevendo uns garranchos. — Vá falando.
Ser tossiu outro pigarro e continuou:
— Muitos gramáticos me chamam VERBO SUBSTANTIVO, como quem diz que eu sou a substância de todos os demais Verbos. E isso é verdade. Sou a Substância! Sou o Pai dos Verbos! Sou o Pai de Tudo!
Sou o Pai do Mundo! Como poderia o mundo existir, ou ser, se não fosse eu? Responda!
— Não tem resposta, Serência. É isso mesmo — disse Emília,
escrevendo. — Os leitores do Grito vão ficar tontos com a minha reportagem. O diabo é este lápis sem ponta. Não haverá por aí algum  canivete ou faca que não seja de mesa, Serência?
Não havia canivete, nem faca, nem nenhum instrumento
cortante naquela cidade de palavras, de modo que Emília só podia contar com os seus dentes. Mas tanto roeu o lápis, sem conseguir boa ponta, que ele foi diminuindo, diminuindo, até virar um toquinho inútil.
Acabou-se o lápis — e foi essa a verdadeira causa de o Grito do Pica-Pau Amarelo (jornal que aliás nunca existiu) não haver publicado a mais sensacional reportagem que ainda foi feita no mundo. O Verbo Ser falou muita coisa de si, contando toda a sua vida desde o começo dos começos. Disse que já havia morado na cidade das palavras latinas, hoje morta.
— Naquele tempo eu me chamava Esse. Depois que a cidade latina começou a decair, mudei-me para as cidades novas que se foram formando por perto, e em cada uma assumi forma especial. Aqui nesta tomei esta forma que você está vendo e que se escreve apenas com três letras. Na cidade de Galópolis virei Ètre. Em Italópolis virei Essere. Em Castelópolis sou como aqui mesmo.
— Então foi em Roma que Vossa Serência nasceu?
— Não, menina. Sou muito mais velho que Roma. Antes de mudar-me para lá eu já existia na cidade das palavras sânscritas; e antes de ir para a cidade das palavras sânscritas, eu já vinha não sei de onde. Perdi a memória do lugar e do tempo em que nasci, embora esteja convencido de que nasci junto com o mundo.
(Emília no país da Gramática - Monteiro Lobato)

Um comentário:

  1. Ai, que delícia!!!
    Saber é saborear...
    Obrigada, por esse regalo à memória.

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